Amigos e amigas, vamos conversar? Gostaria de lhes contar sobre uma mudança em minha vida. Para quem ainda não sabe, “ser um baby boomer” significa ter nascido entre os anos 1945 e 1960 mais ou menos. Sou um. Isso significou que minha pequena história da vida cruzou com a grande. A História com H maiúsculo. Na juventude, minha geração entrou de cabeça nas revoluções coletivas: a da música, a do esporte, a da família e do divórcio, a da sexualidade e a política. Éramos nós, os jovens, contra eles. Eles eram o resto. Foram revoluções cheias de alegria e entusiasmo – ainda que para apanhar da Ditadura ou ser morto por ela. Foi a descoberta dos corpos, do hedonismo e do consumo. Era a época de « paz e amor ». Das flores no cabelo por um lado. E do cabresto para entrar no mercado de trabalho competitivo e de faca nos dentes, por outro.
Porém se tais momentos eram percebidos na vida privada e pública, outra revolução se arrastava no subsolo. Menos visível e silenciosa, pois feita por aparelhos cujo nome até ignorávamos. Máquinas grandes e barulhentas que emitiam sons e pareciam querer pensar: processadores, memórias, captadores, fibras óticas, ligação de Hertz. Digo isso, pois, a minha pequena história não vi chegar a grande revolução do século XX. A técnica, que nos levou do analógico ao numérico. E a partir dos anos 1980, ao crescimento exponencial da capacidade de transmissão e telecomunicações em diferentes redes. Segundo o grande escritor de ficção científica Isaac Azimov, a humanidade seria substituída pelo computador.
Eis que comprei o meu e nasceu um novo membro da família Eis que contratei um gentil professor que ia semanalmente me ensinar a “usar” o computador. Não aprendi mais do que ligar e desligar, “copia e cola”. Nem à pesquisa pelo computador me interessava. Que prazer maior do que ler centenas de documentos, descartáveis ou não, úteis ou não, mas ricos de histórias, personagens, feitos, descrições. Que prazer maior do que estar nas bibliotecas, livro aberto e caderninho de notas, a mão subindo e descendo para gravar a palavra procurada. E a graça de organizar desorganizando as notinhas em papeluchos que me indicavam os caminhos da pesquisa. Minha letra nunca ajudou muito. Mas assim foi. E surgiam livros atrás de livros. Pesquisa sobre pesquisa. Para vencer o horror de abandonar o lápis pela máquina, tentei tratá-lo como um igual. Com o mouse entre os dedos, por que não o domesticar? Eu falava com ele: “Ah, não quer fazer, né…”. Nem sempre funcionava pois os momentos de raiva, páginas perdidas, lágrimas e palavrões atrasavam o trabalho. A suposta humanização não funcionava.
Anos 1973, um engenheiro da Motorola inventou o telefone celular. O sinal telefônico virou analógico, permitindo cada vez mais informações nas chamadas de voz. Nasciam os « cookies ». Em 1992, o SMS. Em 1994, o primeiro Smartphone. Em 1998, a tela colorida. Em 2001 o Bluethooth. Em 2004, o Instagram. Em 2007 Steve Jobs e o Smarthphone. E em 2010, o Face book. E a eu senti que a grande História, aquela com H, estava cada vez mais rápida. Mais ágil. Mais furtiva. Quantos botões e senhas. Mais toques e recados. Mais respostas a dar.
Eu era definitivamente alguém do século passado. Reconheço: não sabia as senhas nem entrar, nem interagir. Fora ejetada para fora da grande História. Vivia não mais o tempo do coletivo, mas aquele de afirmação da vida individual. O tempo do eu e minha tela. Mas, me perguntava: – como fazer para que a distância não afaste mais ainda os laços sociais?
Reação? Todos os dias, nossa vida emocional é atravessada por emoções que explodem sem controle. São breves trepidações emocionais, instabilidades da vida afetiva, além de emoções de longa duração que dão sentido à vida. Como estar à altura das mudanças que a grande História impõe às pequenas? Certamente não nos colocando acima delas. Mas nos deixando atravessar por elas. Resolvi acolher as mudanças e me colocar em suas brechas. Resolvi me abrir para o ‘presente vivo” das interconectividades e assumi-lo. Me envolver para além do que escrevo em livros ou me permito trocar. Fazer da comunicação não o que isola, mas o que aproxima. Fazer, enfim, deste Canal a oportunidade de alegrias compartilhadas. Vamos juntos?!