Não, meus amigos, com todo respeito, não estamos em torno de uma mesa espírita, esperando respostas do além. O que procuramos entender é o que tem acontecido com nosso espírito crítico. Porque, ao que parece, ele vem sendo usado de forma exagerada e mal direcionada. E o resultado disso? Sua forma mais nobre está se desvalorizando.
Hoje em dia, tornou-se comum “cancelar” quem pensa diferente de nós, sem sequer analisar com atenção os argumentos alheios — ou mesmo os nossos. A crítica virou arma de ataque, não de reflexão. Amparados por uma liberdade de expressão quase sem limites e amplificados pelas redes sociais, insultamos, condenamos e excluímos com facilidade. Muitas vezes sem compreender o que estamos criticando. E, ao mesmo tempo, fascinados por todo tipo de relativismo, passamos a aceitar, sem questionamento, ideias frágeis ou até indefensáveis. Tudo isso com a certeza confortável de que muitos ao nosso redor pensam da mesma forma. Seguir a maioria virou critério de verdade.
Usamos a liberdade de expressão, muitas vezes, para silenciar os que nos incomodam. Resultado? Um ambiente sufocado por censura e autocensura.
O espírito crítico, que antes libertava, hoje muitas vezes paralisa. O individualismo em alta deu à crítica um novo papel: ela virou uma espécie de afirmação de identidade pessoal. Em vez de “penso, logo existo”, parece que agora vale o “me oponho, logo existo”. Será que é assim que garantimos uma sociedade melhor?
Pelo que tenho ouvido de educadores, escritores, poetas e artistas — frequentemente censurados ou atacados pelo chamado “politicamente correto” —, o que vejo é um novo tipo de obscurantismo. Uma ânsia por desconstruir, desmascarar, se opor por se opor. E, em nome da liberdade, calar quem discorda. Quando os direitos de todos viram privilégios de alguns, nem a liberdade nem a igualdade resistem por muito tempo.
O que se observa é que usamos nosso espírito crítico apenas para defender o que já pensamos. Pensamentos formados a partir de informações incompletas, num mundo em que somos bombardeados por dados a cada segundo. O ideal seria adotarmos uma postura mais próxima da ciência: investigar, questionar, verificar antes de concluir. Mas quem tem tempo — ou preparo — para isso? E será que só quem tem deveria tomar as decisões que nos afetam a todos?
Se o espírito crítico fosse a solução para tudo — e não é — talvez fosse melhor usá-lo com mais moderação. Até que tempos mais lúcidos cheguem, talvez seja mais sábio cultivar virtudes como humildade, tolerância e paciência diante das incertezas de um mundo cada vez mais confuso. E, quem sabe, aprender a rir do que nos separa… e sorrir para o que ainda nos une.